O livro de Rute, uma joia literária da Bíblia hebraica, oferece um vislumbre comovente da vida no antigo Israel durante o período dos Juízes. Embora pequeno em extensão, seu impacto teológico e humano é imenso. Central para sua trama de lealdade, providência e redenção está o capítulo 3, conhecido por apresentar um dos momentos mais intrigantes e cruciais da história. Este capítulo detalha a estratégia de Naomi para garantir o futuro de sua nora, Rute, e a subsequente interação entre Rute e Boaz, o rico parente de seu falecido marido. É aqui que os laços de família e as leis de resgate se entrelaçam de forma dramática, conduzindo a eventos que mudarão para sempre o destino dessas personagens.
O livro de Rute: contexto e personagens
O livro de Rute situa-se num período tumultuado da história de Israel, marcado por instabilidade social e moral, conforme descrito no livro dos Juízes. No entanto, Rute oferece um contraponto refrescante, destacando atos de bondade, integridade e fidelidade em meio ao caos. A narrativa começa com a história de uma família de Belém, Judá, que migra para Moabe devido a uma fome severa. Elimeleque, sua esposa Naomi, e seus dois filhos, Malom e Quiliom, buscam refúgio, mas a tragédia os atinge: Elimeleque e ambos os filhos morrem em Moabe, deixando Naomi viúva e sem descendência masculina, com suas duas noras moabitas, Orfa e Rute.
A situação de Naomi e Ruth
Com a notícia de que a fome havia cessado em Israel, Naomi decide retornar à sua terra natal. Ela tenta persuadir suas noras a permanecerem em Moabe, onde poderiam ter uma nova vida. Orfa, comovida, mas pragmática, volta para sua família. Rute, no entanto, demonstra uma lealdade inabalável a Naomi, proferindo uma das declarações de compromisso mais belas e citadas das escrituras: “Para onde fores, irei; onde ficares, ficarei; o teu povo será o meu povo, e o teu Deus, o meu Deus.” Essa declaração não é apenas de amor filial, mas de conversão e compromisso com a fé e o povo de Israel. Ambas chegam a Belém na época da colheita da cevada, uma estação de esperança e trabalho árduo. Rute, para sustentar a si e a Naomi, passa a respigar nos campos. É nesse contexto que ela encontra Boaz, um parente distante de Elimeleque, conhecido por sua riqueza e caráter justo. Boaz, impressionado com a reputação de Rute e sua devoção a Naomi, demonstra grande bondade e proteção para com ela, permitindo-lhe colher livremente em seus campos e oferecendo-lhe segurança.
Rute 3: o plano de Naomi e a visita ao terreiro
Conforme a colheita da cevada chega ao fim, Naomi percebe que a oportunidade de Rute para encontrar um marido e, mais importante, um redentor para a família de Elimeleque está diminuindo. Consciente da bondade de Boaz e do seu papel potencial como parente-resgatador (goel), Naomi elabora um plano audacioso e, à primeira vista, pouco convencional. Ela instrui Rute a se banhar, ungir-se, vestir suas melhores roupas e ir ao terreiro de Boaz à noite, sem ser notada. O objetivo era esperar até que Boaz comesse, bebesse e, satisfeito, se deitasse para dormir.
O encontro noturno e o pedido de redenção
Seguindo as instruções de Naomi, Rute se dirige ao terreiro de Boaz. Após ele adormecer, ela se aproxima silenciosamente, levanta a coberta de seus pés e se deita. No meio da noite, Boaz acorda sobressaltado, sentindo uma presença. Ele pergunta quem está ali, e Rute se revela, proferindo um pedido surpreendente: “Eu sou Rute, tua serva; estende a tua capa sobre a tua serva, porque tu és resgatador.” Este pedido não é meramente um convite romântico, mas uma declaração formal e culturalmente entendida de que Boaz deveria assumir o papel de parente-resgatador. A “capa” simboliza proteção e o direito de casamento. Rute, ao pedir que Boaz a cobrisse, estava solicitando que ele se casasse com ela e, assim, redimisse a linhagem de Elimeleque e garantisse herdeiros para o nome de seu falecido marido.
O papel do resgatador (goel)
O conceito de “parente-resgatador” ou “goel” era uma instituição legal e social vital no antigo Israel, destinada a proteger a integridade da família e da propriedade. O goel tinha várias responsabilidades, incluindo resgatar um parente que se tornara escravo, vingar o sangue de um parente assassinado e, crucially para a história de Rute, comprar de volta a terra de um parente empobrecido ou casar-se com a viúva de um parente falecido sem filhos, para levantar descendência para o nome do falecido. Este último aspecto é conhecido como casamento levirato, embora Boaz não fosse o irmão do falecido, a lei permitia que um parente próximo assumisse essa responsabilidade em certas circunstâncias.
A resposta de Boaz e o compromisso
A reação de Boaz ao pedido de Rute é crucial para a compreensão do seu caráter. Longe de se ofender ou se aproveitar da situação vulnerável de Rute, ele elogia sua bondade e fidelidade. Boaz reconhece que o gesto de Rute não era apenas para buscar segurança pessoal, mas para honrar a memória de seu marido e a família de Naomi. Ele a tranquiliza, prometendo fazer tudo o que ela pediu, pois toda a cidade sabia que ela era uma mulher virtuosa. No entanto, Boaz revela que existe um parente mais próximo do que ele que tem o direito primário de resgate. Ele promete resolver a questão na manhã seguinte, garantindo a Rute que se o parente mais próximo recusasse, ele mesmo agiria como resgatador. Para proteger a reputação de Rute, ele a envia para casa antes do amanhecer, com uma generosa porção de cevada como prova de seu compromisso e para sustento.
Temas centrais e sua relevância
O capítulo 3 de Rute é rico em temas que ressoam através dos séculos. A fidelidade é um deles, manifestada na lealdade inabalável de Rute a Naomi, e na integridade de Boaz. A providência divina é sutilmente tecida em toda a narrativa; embora Deus não seja explicitamente o centro de cada diálogo, Sua mão guia os eventos, transformando a desolação em esperança. A vulnerabilidade e a proteção também são evidentes, com Rute, uma mulher estrangeira e viúva, encontrando segurança sob a asa (e a capa) de Boaz.
Fidelidade, providência e o legado de Rute
A história de Rute 3 culmina não apenas em um casamento, mas na preservação de uma linhagem vital para a história de Israel e, consequentemente, para a história da salvação. Rute, a moabita, torna-se ancestral de Davi, o grande rei de Israel, e, por extensão, de Jesus Cristo. Este capítulo demonstra como atos de bondade, justiça e fé podem ter implicações monumentais, moldando o curso da história e revelando o plano divino através de circunstâncias aparentemente comuns. A narrativa de Rute 3 é um lembrete poderoso de que a fidelidade a princípios justos e a confiança na providência podem trazer redenção e um futuro promissor, mesmo nas situações mais desafiadoras.
Conclusão
O capítulo 3 do livro de Rute é um ponto de viragem, transformando a incerteza em promessa. Através de um plano ousado de Naomi, da coragem de Rute e da integridade de Boaz, as engrenagens da redenção são postas em movimento. Este episódio não apenas assegura um futuro para Rute e Naomi, mas também demonstra a beleza das leis de Israel em ação, protegendo os vulneráveis e mantendo a continuidade das famílias. A história de Rute 3 ressoa como um testemunho da fidelidade humana e divina, um lembrete de que, mesmo em tempos de adversidade, a bondade e a justiça podem prevalecer, pavimentando o caminho para um legado duradouro e significativo.
Perguntas frequentes
Qual o papel de Naomi no plano de Rute 3?
Naomi age como mentora e estrategista, elaborando um plano para Rute encontrar segurança e redenção através de Boaz, utilizando as leis de parente-resgatador de Israel. Ela instrui Rute sobre como abordar Boaz no terreiro, garantindo que o pedido fosse feito de forma apropriada e eficaz.
O que significa “estender a capa sobre a tua serva” no contexto de Rute 3?
Este gesto é um pedido simbólico de casamento e proteção. A “capa” representa o direito de um homem de assumir a responsabilidade e a segurança de uma mulher, e o pedido de Rute era uma forma formal de solicitar a Boaz que a tomasse como esposa e cumprisse seu papel como parente-resgatador.
Por que Boaz não agiu imediatamente após o pedido de Rute?
Boaz elogiou Rute por sua fidelidade e reconheceu seu pedido, mas revelou que havia um parente mais próximo com o direito primário de resgate. Ele demonstrou sua integridade ao prometer resolver a questão legalmente na manhã seguinte, garantindo que a ordem correta fosse seguida.
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